lo XVII. Certo dia Julia experimentou as rosquinhas que as freiras faziam e gostou tanto que se habituou a comprar uma caixinha todos os domingos. A assiduidade de suas visitas levou-a a travar uma certa amizade com a Irmã Porteira, que ela naturalmente nunca via, mas com quem falava através da porta giratória de madeira. Conhecendo os rigores da clausura, certo dia Júlia contou à Irmã que morava bem ali na frente, no terceiro andar, naquela varanda que dava para a fachada; e que não vacilasse em pedir a sua ajuda se precisasse de qualquer coisa do mundo externo, como levar uma carta ou buscar um embrulho, ou fazer algum outro favor. A freira agradeceu e as coisas ficaram assim. Passou um ano, passaram três anos, passaram trinta anos. Certa tarde, Julia estava sozinha em casa quando bateram na porta. Abriu e se deparou com uma freira pequenina e anciã, muito limpa e enrugada. Sou a Irmã Porteira, disse a mulher cm uma voz familiar e reconhecível; anos atrás você me ofereceu sua ajuda se precisasse de alguma coisa de fora, e agora eu preciso. Pois não, respondeu Julia, diga. Queria lhe pedir, explicou a freira, que me deixasse debruçar-me na sua varanda. Estranhando, Julia fez a anciã entrar, guiou-a pelo corredor até a sala e foi para a varanda com ela. Lá ficaram as dias, imóveis e caladas, observando o convento durante um bom tempo. Afinal a freira disse: É muito bonito não é? E Julia respondeu: Sim, muito bonito. Dito isto, a Irmã Porteira regressou para o seu convento, provavelmente para nunca mais voltar a sair.Cristina Fernández Cubas contava essa belíssima história como exemplo da maior viagem que um ser humano pode realizar. Mas para mim é algo mais, é o simbólico perfeito do que significa a narrativa. Escrever romances implica atrever-se a completar o monumental percurso que tira você de si mesmo e permite se ver no convento, no mundo, no todo. E depois de fazer esse esforço supremo de entendimento, depois de quase tocar por um instante na visão que completa e que fulmina, regressamos mancando para a nossa cela, para o encerro da nossa estreita individualidade, e tentamos nos resignar a morrer.”
MONTERO, Rosa. A Louca da Casa. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. Pág 192 e 193
Nada mais bonito do que terminar um livro sobre narrativa assim.
Que maneira delicada e tocante que a Rosa achou para comparar um gesto à função de escrever romances. Acho que esse trecho resume bem o transcorrer de todo o livro. Se vocês tiverem tempo e vontade acho que também vão adorar lê-lo de cabo a rabo!
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